4 de abril de 2015

Superexposição das Crianças à Tecnologia


“Tablets”, “iPads”, “smartphones”...
Imagem: morguefile.com
Quando eu era criança (e não faz muito tempo!), o aparelho mais tecnológico que eu costumava utilizar era o vídeo cassete. Ao longo dos anos, vi a tecnologia se desenvolver em ritmo acelerado. Na minha adolescência, saia um modelo novo de celular por ano e olhe lá... Hoje, toda vez que acesso a internet, sou surpreendido pelo anúncio de um superlançamento. Ao mesmo tempo, o acesso a essas tecnologias pelas pessoas está facilitado: preço, formas diversas de pagamento, planos personalizados de serviços de internet oferecidos... A tecnologia transformou o mundo e as pessoas. E, por conseguinte, a infância...

Os aparelhos eletrônicos iniciaram uma nova forma de terceirização da educação dos filhos. “Meu filho só fica quieto quando está jogando no celular”, já ouvi muitas mães dizendo. Elas desconhecem, no entanto, os efeitos dessa superexposição infantil à tecnologia.
Órgãos internacionais da Pediatria, da Psiquiatria e da Psicologia afirmam que, para um desenvolvimento saudável, crianças de 0 a 2 anos não deveriam ser expostas a qualquer tipo de tecnologia. Dos 2 aos 18 anos, a exposição deveria ser de, no máximo, duas horas por dia. 
Os pais, parece, estão exagerando um pouquinho...

Mas quais são os riscos?

(1) Crianças mais agitadas... muito mais agitadas!
Você já ouviu falar do “Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade” (TDAH). Ele está “na moda” nos últimos tempos! A prevalência desse transtorno neurobiológico varia de 3 a 5% entre crianças de diversas partes do mundo. Quer dizer que, a cada 100 crianças, apenas 3, 4 ou 5 apresentam esse transtorno. A sensação nas escolas brasileiras, no entanto, não é essa. Diagnósticos de TDAH estão sendo dados indiscriminadamente. São constantes os relatos de crianças cada vez mais agitadas. Bons professores, com anos de experiência, estão se sentindo fragilizados.
Esse é um resultado da exposição precoce às tecnologias. A superestimulação, especialmente nos primeiros anos do desenvolvimento infantil, acarreta efeitos comportamentais significativos, no tocante à impulsividade, agressividade, pouca capacidade de manter a atenção, agitação motora, etc.
Além disso, a criança acostumada com as tecnologias, não se vê estimulada às atividades próprias da educação formal, como a escrita convencional e os cálculos. A escola concorre com uma série de outros estímulos.
A memória das crianças também está sendo afetada. Afinal, hoje em dia, não precisamos mais cumprir tarefas de memória, como decorar endereços e números de telefone. Tudo fica disponível a um clique. Tais tarefas, no entanto, durante o desenvolvimento são fundamentais para o amadurecimento das nossas funções cerebrais (entendeu por que a professora insistia pra você decorar a tabuada na 4ª série?).

(2) Obesidade infantil
O uso indiscriminado da tecnologia tem contribuído com o aumento da obesidade infantil – outro problema sério da atualidade. Em primeiro lugar, as crianças têm dedicado mais tempo ao uso de celulares e jogos que à realização de outras atividades como brincar na rua ou praticar esportes. O sedentarismo tem se tornado crônico desde a infância. Há, ainda, uma correlação entre a exposição a videogames e à televisão e a hábitos alimentares pouco saudáveis.

(3) Declínio da qualidade do sono
A superexposição à tecnologia compromete a duração e a qualidade do sono nas crianças. A falta de sono produz uma série de problemas no desenvolvimento e na realização de tarefas cotidianas como apresentar bom desempenho escolar.

(4) Exposição a riscos
Muitos pais não supervisionam a utilização que os filhos fazem das tecnologias, especialmente das redes sociais virtuais. Assim, as crianças se expõem a diversos riscos.  A pedofilia e o “Choking Game são alguns exemplos dos perigos que habitam a internet.

(5) Exposição a modelos agressivos
O comportamento das crianças é diretamente influenciado pelo tipo de estímulos aos quais são expostas. Há estudos que traçam correlações entre a exposição a jogos violentos, por exemplo, e a agressividade. Hoje, como as qualidades gráficas dos jogos de vídeo game são cada vez mais próximas da realidade, o impacto é ainda maior. É por isso que os jogos de vídeo game também têm classificação indicativa. O game “Grand Theft Auto V - GTA”, por exemplo, apresenta cenas de nudez, tortura, violência e perseguição policial, e sua classificação indicativa é para maiores de 17 anos!

(6) Isolamento e baixa competência social
Nossas crianças passam mais tempo atrás da tela do computador que com a família ou se divertindo com os amigos “reais”. Isso é um grave problema. A geração atual tem pouco desenvolvidas suas habilidades sociais de base, como a comunicação e a expressão de ideias. Além disso, como a superestimulação também concorre para a impulsividade, temos prejuízo na competência social das crianças e adolescentes. Na adolescência, isso tudo pode colaborar com o surgimento de sintomas de depressão e de ansiedade.

(7) Incentivo ao consumismo
Como a tecnologia está em constante mudança e temos o hábito de nos rendermos às novidades do mercado (com qual frequência você troca de aparelho celular?), estamos criando uma geração essencialmente consumista. Os bens de consumo são vistos como objetos descartáveis e seu valor está condicionado ao quão na moda eles estão. As crianças que crescem observando esta tendência no comportamento dos pais, tendem a ser mais consumistas. O resultado é: insatisfação pessoal (afinal, vale mais o ter que o ser), frustração, individualismo, etc.

Imagem: morguefile.com

“Ah, mas o meu filho só fica quieto quando está jogando no celular! Se eu tiro, ele chora...” – Eu prego que educar é criar e superar conflitos. Afinal, celulares vêm com manuais de instrução (que a gente nem lê!), mas os filhos, não. A tecnologia pode e deve ser utilizada para subsidiar as ações educativas dos pais e da escola, mas nunca para substituí-las.

Outra versão deste texto pode ser encontrada em: http://www.educadois.com.br/superexposicao-das-criancas-tecnologia-terceirizacao-educacao-novos-rumos-desenvolvimento-humano/