25 de junho de 2020

Pensar e conversar: estratégias e dificuldades na educação dos filhos

VOCÊ SE SENTE PRONTO PARA A ADOLESCÊNCIA DO SEU FILHO?
O QUE VOCÊ PENSA SOBRE OS DESAFIOS DE EDUCÁ-LO NESTA ETAPA DA VIDA?

Olá!

Sou psicólogo e pesquisador no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e estou realizando um estudo de mestrado relacionado aos pensamentos de pais e mães sobre questões da adolescência e sobre as relações familiares neste período da vida.
Estou em busca de pais e mães que residam com um filho ou filha com idade entre 10 e 14 anos e que aceitem participar voluntariamente desta pesquisa. O estudo será realizado totalmente online, em duas etapas: preenchimento de um questionário (com duração entre 15 e 30 minutos aproximadamente) e realização de uma entrevista (bate-papo) por videochamada (entre 30 e 60 minutos) a ser agendada posteriormente.
Como benefício, você poderá refletir sobre temas importantes, que poderão ajudá-lo a pensar em estratégias para a educação de seu filho e em formas de superar desafios e dificuldades associados a esta tarefa.

Se você gostaria de participar, é só clicar neste link (ou copiá-lo em seu navegador) e responder ao questionário: https://forms.gle/RZ9pUZ9T1NpBuFRu5.

Se você não for um possível participante, você pode colaborar compartilhando este convite com alguém que você conhece e que se encaixa nos critérios de participação.
Toda colaboração será bastante bem-vinda e ajudará no desenvolvimento de conhecimentos científicos da área da Psicologia.

Caso você tenha alguma dúvida, pode entrar em contato comigo pelo e-mail: danilociconipsi@gmail.com.

Muito obrigado desde já!



Danilo Ciconi
(Psicólogo / Mestrando em Psicologia PPGPsi/UFSCar)

13 de março de 2020

SAÚDE MENTAL EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS

- 13/03/2020

Recentemente, na última quarta-feira, 11/03/2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que estamos vivenciando uma pandemia de covid-19 (doença infecciosa causada pelo coronavírus, descoberta após o surto chinês em dezembro de 2019).
O número de casos e, inclusive, de mortos, cresceu exponencialmente nos últimos dias, em diversos lugares do mundo.
Diante da superexposição às notícias, muitas delas alarmantes, como manter a Saúde Mental?
Situações como esta despertam em nós uma série de emoções intensas – medos, inseguranças, ansiedade, dúvidas etc.
Coletivamente, temos uma tendência a catastrofizar riscos e possibilidades negativas. Catastrofização é uma distorção cognitiva (uma forma distorcida de enxergar a realidade) que nos faz, diante de uma situação-problema, imaginar (e ruminar) costumeiramente a pior coisa que pode acontecer, o pior desfecho possível para aquilo. O efeito disso é o despertar de emoções difíceis, como aquelas supracitadas.
Imagem: pixabay.com
Para manter a paz e a saúde, é preciso enxergar os problemas com as suas reais proporções.
Como?


(1) Informação e Educação.
Um primeiro passo é sempre buscar informação de confiança sobre o problema em questão. As redes sociais, por exemplo, são terreno fértil para as chamadas fake news, teorias da conspiração, textos alarmistas ou informações desencontradas.
Se você não está conseguindo controlar a própria ansiedade, convém tentar afastar-se um pouco das redes, durante situações de crise ou risco, como a atual.
Além disso, consultar materiais confiáveis ajuda a conhecer melhor o problema, a aprender estratégias de enfrentamento seguras e, por conseguinte, reduz a ansiedade e o estresse. Afinal, o medo é sempre maior diante daquilo que não conhecemos muito bem ou que nos é apresentado de forma superestimada.
Algumas boas sugestões de leitura são a própria página da OMS sobre o coronavírus e a covid-19 (https://www.who.int/news-room/q-a-detail/q-a-coronaviruses), o material informativo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (https://coronavirus.ufrj.br/…) e o aplicativo Coronavírus-SUS, lançado pelo Ministério da Saúde para smartphones.


(2) Saber que fiz tudo o que estava ao meu alcance.
E isto significa simplesmente: adotar estratégias de prevenção e pequenas mudanças de hábito.
Quando temos ciência de que utilizamos todas as estratégias possíveis para lidar com o problema, tendemos a nos sentir menos ansiosos. Afinal, fizemos a nossa parte, nos empenhamos, estamos no caminho certo.
Prevenção está ligada sobremaneira a ações de higienização. E aqui cabe um cuidado ímpar: tais ações devem ser nossas aliadas, condutas que nos ajudam a sentir mais segurança; nunca podem se tornar comportamentos obsessivos. Se for isto que está acontecendo, cabe procurar ajuda especializada – psicólogo ou psiquiatra. Comportamentos obsessivos ou compulsivos são potencialmente ansiogênicos; não colaborarão em nada com a promoção de saúde e qualidade de vida. Higienização das mãos, por exemplo, feita com relativa frequência (o recomendado) é muito diferente do que lavar as mãos o tempo todo. Evitar aglomerações e lugares fechados é muito diferente do que trancar-se em casa e abandonar qualquer convívio social. Os extremos jamais ajudarão. Ao contrário, estando com a emoção a flor da pele, a capacidade de somatização (sintomas físicos atrelados a estados emocionais intensos) apenas se enleva.
Cabe destacar que tais ações de higiene não são necessárias apenas porque corremos o risco de infecção pelo coronavírus, mas sim, são atitudes recomendadas cotidianamente para evitar uma série de outros quadros infecciosos; e que, por muito tempo, temos negligenciado. A demanda da proteção contra a covid-19 apenas vem nos fazer recordar e nos atentar para práticas que devem mesmo ser acopladas ao nosso cotidiano.
Pequenas mudanças de hábitos também são bem-vindas: zelar por uma alimentação mais saudável e completa, por noites de sono de maior qualidade – tudo isto melhora a “resistência” do corpo, prevenindo-nos contra o coronavírus, mas também promovendo Saúde Mental.
Práticas de meditação ou mindfulness (atenção plena) também ajudam a acalmar e a redimensionar nossa percepção da realidade, ou seja, avaliar a situação como ela realmente é, sem alarde, sem exageros.


(3) Seguir os protocolos de atendimento.
Diante de sintomas que possam conotar indício de covid-19, há todo um protocolo médico a ser seguido, que será exposto pelos profissionais de saúde que estiverem nos acompanhando.
Até lá, só nos cabe prevenir.
Diante de um possível diagnóstico, tudo o que podemos fazer é seguir as recomendações.
Quando entendemos com mais clareza qual é a nossa responsabilidade, na prevenção ou no tratamento, percebemos que o que está ao nosso alcance é passível de ser realizado. Nosso senso de autoeficácia é validado – lidamos com tudo com mais tranquilidade.
Sintomas de cunho psicológico, se muito frequentes ou intensos, demandam atenção mais dileta. Procurar o auxílio de um psicólogo é protetivo quando, diante de sentimentos de ansiedade, ainda que fundamentados em noticias ou riscos potenciais, deixamos de cumprir as nossas rotinas, de estar com pessoas queridas, de planejar o futuro ou de experimentar verdadeira paz, esperança e felicidade ao longo dos dias.


- 25/03/2020

(Imagem: @Pixabay).

Diante de toda a crise e ansiedade provocadas, entre tantas outras coisas, pela pandemia e seus desdobramentos, há quem possa perguntar:
- E os psicólogos, como estão?
Ao que sinceramente eu responderia:
- Igualmente ansiosos e assustados, como todos demonstram estar!
A Psicologia não nos libera das mais viscerais emoções humanas.
Todavia, o conhecimento em Psicologia nos orienta e ajuda a continuar procurando caminhos para, inicialmente, conseguir manter o equilíbrio, e, por conseguinte, ajudar os outros a também fazê-lo (e, adianto, nem sempre conseguimos; o médico também pode vir a adoecer, é fato!).
Tem coisa que psicólogo também "sente na pele". E, arrisco dizer, é justamente por isso que, às vezes, parece que compreende tão bem a dor que se lhe apresenta o paciente.
Estamos todos no mesmo barco. Como psicólogo, remando, tento também ensinar a remar (espero que o cumpra, ao menos boa parte das vezes).



- 30/03/2020


INFORMAÇÃO, ANSIEDADE E PRÁTICAS DE INTERIORIZAÇÃO 🧠🌻

Tudo o que precisávamos saber sobre a prevenção e os cuidados relacionados ao coronavirus, nós já o sabemos.
A informação de agora é apenas excesso, que desperta ansiedade.
Se afaste um pouco da TV e das redes sociais, se isto estiver lhe causando (ou piorando) emoções difíceis.
Nosso interesse "mórbido" por más notícias ou os debates político-ideológicos contribuem de que formas para a situação presente?
Distraia e aquiete sua mente. Com entretenimento, mas também com práticas de interiorização.
Olhar pra fora nós já fazemos muito bem. Olhar "pra dentro" é o segredo para manter a paz em meio às adversidades.

- 18/05/2020
@Pixabay

Neste momento, já ocorreram milhares de mortes no Brasil por conta do covid-19. Mais de 240 mil casos já foram confirmados. E sabe-se, diante da testagem insuficiente, que tais números estão subnotificados.
Misto de luto e medo coletivos. Ânimos à flor da pele. Ansiedade. Disputas políticas e ideológicas agravam o quadro.
-
"Como manter a Saúde Mental?" é questionamento urgente. E, apesar de não haver resposta pronta ou receita de bolo, tenho convicção de que SOLIDARIEDADE e COLETIVIDADE são valores essenciais neste momento.
Ações coletivas, políticas públicas, manifestações artísticas (não exclusivamente para fins de entretenimento), atos de lideranças comunitárias e religiosas, devem suscitar na população sentimentos de ACOLHIMENTO, CUIDADO e PERTENCIMENTO.
O APOIO aos mais pobres e vulneráveis é prioridade inegociável!
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No campo individual, CUMPRIR AS RECOMENDAÇÕES SANITÁRIAS também é dever indiscutível.
O AUTOCUIDADO é a primeira dimensão do cuidado sociocomunitário. Prevenir o contágio e cuidar da própria saúde física e mental (com as ferramentas que se tem) é um passo grandioso!
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Nas redes sociais e canais de comunicação oficiais, é dever de cada um que tenha recursos exigir dos representantes do povo mais transparência e assertividade nas ações de prevenção, de cuidados em saúde e de combate à crise pandêmica (a desdém de partidos ou ideologias). (No seu ritmo, no seu tempo... Se prive de lidar com política ou com redes sociais se, neste momento, isto lhe intensifica a ansiedade e os pensamentos invasivos).
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Por fim, TOLERAR os excessos próprios e dos outros também é aprendizagem fundamental. COMUNICAR-SE de forma mais profunda com as pessoas de casa ajuda nesta prática.
VIOLÊNCIA, todavia, não é discutível. Agressividade e desrespeito apenas nos deixarão ainda mais fragilizados. Diante da violência, busque ajuda e busque ajudar!
Quanto mais SAUDÁVEIS e FORTES forem nossas RELAÇÕES familiares e comunitárias neste momento, creio que mais recursos teremos para manter a Saúde Mental.
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O covid-19 ameaça a todos. Mas podemos, juntos, reduzir seus danos...
@danilociconipsi

25 de fevereiro de 2018

Delinquência Juvenil - Avaliação, Intervenção e Resposta Social


Contribuições da Psicologia Criminal e da Criminologia do Desenvolvimento ao manejo do Adolescente em Conflito com a Lei

Imagem: Pixabay


            Realidade brasileira e Justiça Juvenil

            A questão da delinquência juvenil está constantemente em pauta no cenário midiático brasileiro, no qual, infelizmente, é tratada frequentemente com sensacionalismo e alarmismo escancarado. A legislação atinente ao manejo do jovem infrator é permeada, por consequência, por uma série de falsas impressões, boatos e críticas irrefletidas por grande parcela da sociedade. A principal delas pousa sobre o princípio constitucional, referendado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90), de que o adolescente menor de 18 anos é inimputável, ou seja, não pode ser penalizado por atos ilícitos aos mesmos moldes que um adulto que infringe a lei. Fato é que dizer que o adolescente não é responsabilizado tal qual o adulto não significa afirmar que nada lhe acontece em resposta à prática de ato infracional. Na mesma legislação (Lei 8.069/90) estão previstas ações, denominadas medidas socioeducativas, que são aplicadas ao jovem que comete delito: advertência, prestação de serviço à Comunidade – PSC, Liberdade Assistida – LA, Semiliberdade, Internação em estabelecimento educacional. Em 2012, a Lei 12.594 deu corpo ao Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo que estabelece princípios e regula a aplicação e a execução das medidas socioeducativas no Brasil.

            Na letra da lei, a Doutrina da Proteção Integral, nos apresenta um cenário otimista, no qual adolescente e sociedade seriam beneficiados por intervenções especializadas que permitiriam a superação do problema da delinquência juvenil. A concretude da prática, por outro lado, ainda está longe de se configurar com tamanha eficiência e eficácia. As unidades de internação em algumas localidades, por exemplo, pouco diferem do que se vê no sistema prisional adulto. O ideal da socioeducação acaba sendo prejudicado por dificuldades estruturais e técnicas. Relatos de violência e de violação de Direitos, somados à morosidade do Sistema de Justiça, tornam a intervenção pouco eficaz, o que reacende os ânimos da sociedade quanto à impressão de pouca efetividade da socioeducação no Brasil. Ainda sobre a internação, ao menos - e isso já é um ganho em absoluto - o adolescente encontra-se ao lado de iguais, de mesma faixa etária, em condições equivalentes de desenvolvimento psicossocial. Deste modo, apesar das falhas, limites e dificuldades, o modelo atual ainda é infinitamente melhor do que a extinção do sistema socioeducativo a partir da redução da maioridade penal.

            Ainda que exista pressão popular para a redução, temos ciência de que esta é fruto ou do desconhecimento da realidade brasileira da atuação junto ao jovem infrator (falsa ideia de que “nada é feito”) ou, ainda, de um senso de vingança que gostaríamos de ver atrelado às práticas jurídicas. No segundo caso, constata-se a desvirtuação do Direito e da Justiça, que só existem efetivamente se fundados sob a pauta da moderação e do equilíbrio. Assim, tendo compreendido os motivos e circunstâncias da Justiça Juvenil brasileira para o estabelecimento da maioridade penal aos 18 anos de idade, insistimos pela sua manutenção.

            A questão não é o discernimento, mas, sim, as possibilidades de intervenção


            A Teoria do Discernimento não fundamenta nossa contrariedade em relação à redução da maioridade penal. Afinal, é claro que o adolescente sabe, sim, que o ato que pratica é ilícito. Agora, responda com sinceridade: o nosso comportamento é total e exclusivamente determinado pela nossa racionalidade? Não apresentamos diversos comportamentos os quais não entendemos muito bem o porquê? Fatores ambientais, sociais, emocionais / de desenvolvimento também são determinantes dos nossos comportamentos, inclusive do comportamento de desrespeito à lei. E sobre tais fatores nós podemos intervir! É por isso que a redução da maioridade penal pouco ajuda na resolução do problema.

            O que consideramos, de fato, para pregar que seja mantido o jovem infrator dentro do sistema socioeducativo são - tendo em vista a etapa do desenvolvimento humano no qual o adolescente se encontra - as efetivas possibilidades de intervenção que nos aparecem no campo das práticas socioeducativas. Em outras palavras, entendemos que para o jovem infrator ainda há esperança de “salvação” – e temos ferramentas para isso!

            O adolescente encontra-se no auge de seu desenvolvimento psicossocial. Qualquer estimulação externa, positiva ou negativa, é capaz de propiciar grandioso efeito no seu desenvolvimento. Quer dizer que a ação errada, o castigo pelo castigo, pode ser capaz de piorar o comportamento delitivo – do que decorrem riscos, não apenas para o jovem, mas para toda a sociedade, que, ao invés de ver reduzir a delinquência, poderia tornar-se refém da escalada da violência. Quer dizer, também, que a intervenção certa é capaz de produzir belíssimos resultados e de modificar trajetórias de vida.

            Talvez algo que nos falte hoje para ajudar a resolver a questão da delinquência juvenil seja a opção pela intervenção correta.


            À cada um, aquilo que precisa

            Sob uma perspectiva desenvolvimental, é evidente que nem todos os adolescentes são iguaisOs adolescentes infratores também não o são, ainda que tenham cometido o mesmo tipo de delito. Avaliar as peculiaridades de cada adolescente é, além de procedimento prescrito em lei, essencial para a elaboração e a aplicação da intervenção correta (medida socioeducativa mais adequada).
Imagem: Pixabay

            Diversos fatores são responsáveis pela ativação e manutenção do comportamento delitivo, de acordo com a literatura científica da área. Ao longo do desenvolvimento, diversas situações de vida cooperam para o aparecimento do comportamento de delinquir. Negligência ou violência familiar, baixa qualidade dos vínculos às instituições pró-sociais (família, escola, trabalho etc.), modelos parentais divergentes ou antissociais, histórico de desadaptação e rebelião escolar, frequentação de pares divergentes, rotina desestruturada etc. são alguns fatores de risco para a delinquência juvenil. Ou seja, quando presentes, ao longo dos primeiros anos de vida até a adolescência, prejudicam o desenvolvimento do jovem eservem de facilitadores para a emissão de comportamentos desviantes, entre os quais, o de infração à lei. Para atuar efetivamente sobre o comportamento delitivo e propiciar ao adolescente a retomada de um desenvolvimento saudável / pró-social, intervir sobre os fatores que estão na base do comportamento de delinquir é essencial.

            Assim, antes da aplicação da medida, é importante pensar quais fatores estão associados ao comportamento delitivo. Mais ainda, é fundamental buscar entender o quanto a vida do adolescente transita ou não em torno da prática de delitos. Em linguagem científica, buscar entender qual o nível de engajamento infracional do adolescente.

            Adolescentes mais comprometidos necessitam de intervenção mais intensa, por exemplo, a internação. Jovens menos envolvidos ou com mais fatores de proteção podem ser beneficiados pelas medidas de meio aberto – liberdade assistida, por exemplo. O ideal é que se considere o nível de engajamento infracional para que a resposta social à infração cometida e a técnica de intervenção sejam adequadas a real necessidade do adolescente foco da socioeducação.

            No Brasil, todavia, grande parte das vezes, a decisão quanto à medida a ser aplicada se pauta apenas na tipificação da lei, ou seja, no delito cometido, sem considerar os fatores associados ou de desenvolvimento do jovem. Assim, muitas vezes, a intervenção não surte o efeito adequado, não por não ter qualidade, mas por não ser a mais adequada àquela pessoa em específico. A equipe psicossocial que realiza a avaliação dos jovens antes da aplicação da medida precisa ter fortalecida a sua compreensão sobre as variáveis de manutenção do comportamento infracional, a fim de amparar com maior rigor técnico-científico as decisões judiciais.

            Uma abordagem sistêmica (que considere variáveis múltiplas – da família, da escola, da sociedade, do desenvolvimento do próprio jovem etc.) é um bom meio de embasar mais criteriosamente a avaliação do adolescente. Ademais, é preciso adotar um referencial sólido de avaliação - oModelo Integrado de Intervenção Diferencial (MIID) é um exemplo de instrumento da área da Criminologia que tem oferecido subsídio à avaliaçãode adolescentes dentro do contexto da Justiça em diversos países, inclusive, no Brasil1, e apresentado bons resultados no direcionamento dos objetivos e das atividades de socioeducação.

            A importante precisão no atendimento socioeducativo


            Já na fase de execução da medida, não se pode perder de vista que a intervenção é individualizada. Para cada adolescente, tendo identificado as suas necessidades, as atividades e meios irão se configurar de forma única, personalizada, e serão expressos no Plano Individual de Atendimento – PIA. Este não pode ser apenas mera formalidade, mas, sim, deve tornar-se guia de execução e acompanhamento da medida. Aresposta exata às necessidades do adolescente (nos campos da prevenção, da reinserção social, da reeducação e da contenção do agir).

            Ferramentas sólidas de intervenção (técnicas e recursos) também se fazem necessárias. A ação socioeducativa não pode ser constituída por meio do improviso. Além disso, a qualidade dos serviços passa pela padronização das práticas. A Abordagem Cognitvo-Comportamental em Psicologia2 e o Modelo Psicoeducativo3 são exemplos de referenciais teóricos que podem oferecer bom instrumental técnico para intervenção junto a adolescentes em conflito com a lei.

            Por fim, se devemos intervir sobre variáveis múltiplas a partir de uma visão sistêmica da realidade, a articulação com a rede de atendimento(órgãos da área da Educação, da Saúde, da Assistência Social etc. – que configuram o chamado Sistema de Garantia de Direitos) é passo primordial para o sucesso da ação socioeducativa. Em grande parte dos municípios brasileiros, a rede necessita ser fortalecida. Investimentos de ordens diversas – financeiro, tecnológico, treinamento dos agentes, fortalecimento dos atores envolvidos etc. – são urgentes. Mas são o único e melhor recurso, tanto para intervir, quanto para prevenir. E prevenção é a principal resposta para a questão da violência e da delinquência no Brasil.

            O problema é que prevenção dá resultado em longo prazo. E, talvez, por isso, falte vontade política para semear resultados. Responder à pressão popular é certo: dá mais ibope... E o que dá ibope é priorizado, em detrimento de outras ações que poderiam - estas sim! - transformar a realidade e garantir a promoção da Justiça e a defesa da segurança pública.


1BAZON, M. R.; KOMATSU, A. V.; PANOSSO, I. R.; ESTEVÃO, R. Adolescentes em conflito com a lei, padrões de comportamento infracional e trajetória da conduta delituosa: um modelo explicativo na perspectiva desenvolvimental. Revista Brasileira Adolescência e Conflitualidade, v. 5, p. 59-87, 2011.

2NEUFELD, C. B. (Org.). Terapia cognitivo-comportamental para adolescentesuma perspectiva transdiagnóstica e desenvolvimental. Porto Alegre: Artmed, 2017.

3BAZON, M. R. Psicoeducação: Teoria e Prática para Intervenção junto a Crianças e Adolescentes. Ribeirão Preto: Holos, 2002.


DANILO CICONI DE OLIVEIRA (CRP 06/123683) é psicólogo, licenciado em pedagogia e especialista em psicopedagogia. Atua na cidade de São João da Boa Vista – SP.

28 de agosto de 2017

“Por que eu não ‘dou certo’ com ninguém?”

                                                        Reflexões sinceras sobre Identidade, Afeto e Relações Amorosas.


            Feridas na área da afetividade são um dos temas que mais rotineiramente aparece no atendimento clínico em Psicologia. De maneira especial, pessoas que já viveram alguns relacionamentos amorosos - que posteriormente foram rompidos - constantemente recorrem ao psicólogo com o seguinte questionamento: “Por que eu não ‘dou certo’ com ninguém?”. Sintomas de ansiedade e depressão comumente acompanham tal questionamento. A prática clínica nos leva a perceber que, grande parte das vezes, alguns mesmos fatores estão presentes na vida e no comportamento das pessoas que acreditam não ter “sorte no amor”. Gostaria de enumerar alguns deles:
 
Imagem: pixabay.com


           1. Superexpectativas em relação ao relacionamento e ao outro.
            Muitas vezes, supervalorizamos os nossos relacionamentos amorosos, elegendo-os como os responsáveis primeiros da nossa felicidade. Por consequência, superestimamos a figura do parceiro e o consideramos como alguém que sempre irá corresponder plenamente aos nossos ideais e expectativas. A “vida real”, porém, não é assim. A nossa felicidade não pode estar condicionada a nenhum relacionamento e a nenhuma pessoa, pois, desta forma, inevitavelmente, iremos nos frustrar e sofrer.
            Onde existe convivência humana, existe conflito – e isso não é algo essencialmente negativo. É ruim, porém, negar que a dificuldade e a necessidade de adaptação faz parte de toda relação interpessoal, especialmente, das relações de afeto.
            Sob esta visão idealizada da relação, acabamos exigindo do outro muito mais do que ele pode nos oferecer. Instalamos no parceiro o sentimento de que nada do que ele faça estará suficientemente bom. E isto desgasta qualquer convivência.
            Construir ideais mais realistas de relacionamento é um passo importante antes de envolver-se afetivamente com alguém, caso contrário, jamais estaremos satisfeitos em qualquer relação e iremos sempre desrespeitar a identidade e o afeto do outro.

2. Necessidade de Autorreflexão e de Ações de Desenvolvimento Pessoal.
            Após uma série de rompimentos, o natural seria olhar para si mesmo e se questionar quanto a atitudes e comportamentos que possam ter contribuído com o fim das nossas relações afetivas e, consequentemente, tentar corrigi-las. Infelizmente, muitas pessoas tendem a colocar a responsabilidade sobre os términos totalmente sobre o outro. Surge aí a crença de que ainda não encontramos a pessoa “certa” – aquela que saberá lidar com todas as nossas inconsistências e destemperanças. O outro passa a ser o único responsável pela nossa felicidade e infelicidade e isto não é verdadeiro.
            Todos nós temos responsabilidade no desfecho de nossos relacionamentos. E há, certamente, lições valiosas que podemos aprender após um término. Olhar para si mesmo, perceber os próprios limites e excessos, entender que nem todas as nossas atitudes são saudáveis e adaptativas, é fundamental para seguir adiante, para começar uma nova história.
            Tendo identificado os próprios limites, faz-se necessário buscar formas de aprender a se relacionar de formas mais positivas. A psicoterapia é um auxílio poderoso nesse processo de autoconhecimento e de desenvolvimento pessoal. Não adianta esperar, de braços cruzados, pelo “príncipe encantado”. Somente após lapidarmos as próprias arestas, estaremos prontos para viver uma história (realista) de amor.

3. Repetição de padrões de comportamento e de crenças disfuncionais.
            Não é porque alguém nos feriu que todos irão fazê-lo; ou porque tivemos relacionamentos negativos, que todos os outros serão também assim. Marcas de relacionamentos passados têm que ser deixadas para trás. Uma nova história exige de nós uma nova postura, uma renovada esperança.
            Há pessoas, no entanto, que carregam, de relacionamento em relacionamento, as “bagagens” negativas do passado. Ciúme exagerado, cobrança obsessiva de atenção e de carinho, ansiedade de separação, insegurança excessiva etc., são alguns comportamentos que devem ser deixados de lado para que se construa um relacionamento satisfatório. É difícil, mas possível, tanto quanto necessário. É “injusto” com o outro jogar sobre ele os pesos que nossas feridas nos deixaram.
            Mais uma vez, a psicoterapia pode ser importante aliada na identificação e superação de comportamentos inadequados e de crenças disfuncionais. Conhecer-se é inevitável para conviver com mais espontaneidade e liberdade.

4. Anulação da própria identidade no relacionamento.
            Algumas pessoas depositam tanta expectativa no relacionamento que acabam anulando a si mesmas para mantê-lo. Não é saudável, muito menos, funcional. Relacionamento exige consideração da identidade de cada um dos parceiros. Anular-se a fim de fazer todas as vontades do outro, negligenciar os próprios valores e ideais de vida, evitar comunicar os próprios sentimentos e ideias, só nos faz sofrer.
            Ninguém é feliz deixando a si mesmo sempre em segundo plano.
        Não vale a pena esforçar-se tanto por um relacionamento que não nos permite sermos nós mesmos. Toda relação que não respeita a identidade e o espaço do outro pouco tem a acrescentar, para ambos os envolvidos.

Imagem: pixabay.com

5. (tentativa de) Anulação da identidade do outro.
            Outro erro comum é a tentativa constante de tentar anular a identidade do outro, de impor sempre a própria vontade. O amor não é uma imposição, é uma escolha diária, é um “contrato” de reciprocidade.
            Toda tentativa de invalidar a identidade alheia é uma violência. Situações de conflito e divergência exigem comunicação e assertividade para serem resolvidas. A relação amorosa só é saudável se é construída sobre o diálogo e a partilha de ideias, de projetos, de valores.
            Querer subjugar o outro não é sinal de amor, mas de obsessão. O amor pressupõe a espontaneidade. Somente assim será legítimo, verdadeiro.
             


            Na clínica, refletir sobre tais aspectos é uma experiência, por vezes, dolorosa, mas libertadora. Contemplar e resignificar a própria história nos dá a chance de aprendermos a ser mais felizes, de enxergar a vida com mais otimismo e leveza.
            É urgente ser feliz sozinho, antes de envolver o outro na própria felicidade; se possuir, antes de se doar. A qualidade dos nossos relacionamentos humanos passa sempre pela qualidade do nosso relacionamento conosco mesmo.

            A gente tem que se cuidar mais para poder amar “inteiro”.


Danilo Ciconi é psicólogo clínico e atua nas cidades de São João da Boa Vista – SP e São Carlos - SP.

23 de agosto de 2017

Projeto de Vida: o Autoconhecimento como Base para o Planejamento Pessoal

            O específico do humano é evoluir. O que nos motiva, dia a dia, a acordar pela manhã e a cumprir a nossa rotina é a possibilidade de crescimento – pessoal, profissional, na família e na sociedade. Todos carregamos sonhos de uma vida “melhor” (que variam de acordo com a subjetividade de cada um e com nossos valores e crenças pessoais). Todos lutamos rotineiramente para construir tais sonhos. Poucos, porém, planejam adequadamente como se dará tal processo de construção da própria trajetória.

                                    Imagem: pixabay.com
Desde a infância, nossas experiências de “sucesso” e/ou de “fracasso” vão formatando nossas crenças pessoais sobre o mundo e sobre nós mesmos e nos levando a tomar posicionamentos frente a vida que temos e aquela que queremos ter (construir). Tais posicionamentos influenciam sobre como nos sentimos diante dos mais diversos contextos e situações. Nesse sentido, grande erro que, vez ou outra, cometemos é encarar a própria felicidade na perspectiva do quando. Frases do tipo “quando eu me formar...”, “quando eu ganhar um salário melhor...”, “quando eu estiver bem resolvido na minha vida amorosa...”, “... aí eu serei feliz! ”, nos levam a murmurar, mas não a construir nada efetivo que coopere com a nossa alegria. Viver é exercício para o tempo presente! Afinal, é apenas no dia de hoje que podemos dar os passos que nos levarão aonde queremos (ou aonde nem sequer imaginamos) chegar!
            Muitos desistem da própria caminhada após as primeiras grandes dificuldades. Mas não é justamente a dificuldade que nos dá fundamento para crescer? O que precisamos é estar (relativamente) preparados para quando a dificuldade chegar. E isso exige de nós clareza em relação aos nossos objetivos de vida, assim como quanto a nossas potencialidades e limites. Autoconhecimento é fundamental!
            Precisamos conhecer nossos reais desejos, aptidões, habilidades e interesses, por exemplo, antes de desenhar nossa carreira profissional; assim como é necessário conhecer quais são nossos valores, ambições, visões sobre família e filhos etc., antes de assumir um relacionamento amoroso duradouro. Buscamos muito conhecer ao outro – a vaga de emprego, o curso de graduação, o interesse amoroso – e pouco a nós mesmos.
            Conhecendo-se melhor é possível planejar com mais precisão como chegar ao que buscamos alcançar. Mais ainda, isto nos ajuda a não gastarmos tempo e energia em projetos que, se olharmos bem, nada têm a ver com o que somos e queremos.
                          Imagem: pixabay.com

            É importante ter ciência, também, que nenhum projeto é imutável. Nós mesmos mudamos ao longo do tempo, ampliamos nosso repertório comportamental e nossos modos de enxergar a vida. Oportunidades e ameaças surgem e se vão ciclicamente. Assim, uma das principais características de um projeto pessoal deve ser a capacidade de constantemente se autoavaliar, manter o que está “funcionando bem” e repensar os aspectos que necessitem de ajustes e/ou de mudanças de foco, de metas e de objetivos. Tudo isso de maneira equilibrada, sem pressões ou ansiedades, uma coisa de cada vez.

            Planeje a sua vida, pois não dá para viver de improviso; mas seja flexível às pequenas mudanças em sua trajetória. Objetivo é norte, não restrição. Se algo não sair como desejado, não é motivo para desistir de si mesmo. Muitas vezes, ao mudarmos de caminho é que descobrimos e nos encantamos com nossa verdadeira identidade. A vida sempre nos apresenta novas possibilidades...

9 de agosto de 2017

Estratégias de Manejo da ANSIEDADE para o VESTIBULAR


A adolescência apresenta algumas tarefas particulares, próprias desta etapa do desenvolvimento, que envolvem não apenas o adolescente, mas todos os membros da família. Uma das principais tarefas a ser concretizada ao longo da adolescência é a Escolha Profissional que pode, ao mesmo tempo, ter o papel de motivar o adolescente ao estudo e ao planejamento para o sucesso no processo seletivo (vestibular), e ser, também, um forte fator ansiogênico. A ansiedade, por sua vez, pode ultrapassar os limites da normalidade nesse momento da vida, e acabar, até mesmo, prejudicando o desempenho do candidato durante a execução do exame. O medo da não aprovação no vestibular é importante fator desencadeador da ansiedade.

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Diversos são os elementos que contribuem com a ansiedade neste momento da vida. Fatores individuais, ligados ao mundo interno do adolescente, tem grande peso para esta condição. Questões ligadas ao autoconceito e a autoestima surgem com força hercúlea. Sentimentos de incapacidade reforçam o medo e, muitas vezes, fazem com que o jovem direcione a si mesmo comportamentos de reprovação e autoacusação.
Fatores externos ao indivíduo, todavia, também atuam a favor da ansiedade. A família e a escola, por exemplo, na tentativa de incentivar o jovem a dedicar-se aos estudos e a preparação para o exame, muitas vezes, acabam exercendo certa “pressão” sobre o adolescente, ainda que não seja essa a intenção de suas práticas.
            Para complicar, para o adolescente, é difícil escolher a profissão, estando ele ainda envolvido pelas crises e conflitos próprios da etapa na qual se encontra o seu desenvolvimento. Assim, a incerteza quanto a ter realizado a melhor escolha também intensifica a ansiedade e acarreta prejuízos para o desempenho do jovem na prova de seleção para o ensino superior.
 
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        Cargas exaustivas de estudo e preparação, dificuldades de organizar-se para dar conta de todo o conteúdo (planejamento para os estudos), dificuldades de aprendizagem, isolamento social, entre outros motivos, estão na base da ansiedade relacionada ao vestibular. Somadas as incertezas em relação ao futuro, tais elementos precisam ser trabalhados junto ao adolescente, para que este consiga dar conta desta etapa, tendo garantida a sua saúde e qualidade de vida.

            É essencial que, ao longo do seu processo de preparação para o vestibular, o jovem alinhe os seus hábitos de vida de modo a manter uma rotina que produza saúde física e emocional. A Psicologia pode ajudar, a partir de estratégias cognitivo-comportamentais de controle da ansiedade e do estresse.
            Assim como o atleta não pode deixar para cuidar do seu corpo e de suas emoções no dia do jogo, o vestibulando não pode preocupar-se com tais questões no último momento. Afinal, saúde não é preço a ser pago pela aprovação.
            No momento da prova, técnicas cognitivo-conportamentais de relaxamento e de visualização podem ser eficazes aliadas do sucesso do candidato.
            A ajuda de um profissional da Psicologia pode ser determinante para que o adolescente vivencie este momento de sua história da melhor forma possível. Mais ainda, além do vestibular, é importante que o jovem esteja preparado para o depois – afinal, a aprovação é apenas o início de novos desafios que serão vividos pelo adolescente e para os quais é fundamental que ele esteja razoavelmente “pronto”.


            Em São João da Boa Vista – SP, realizo um trabalho especializado voltado para esta temática, individual/atendimento clínico e com grupos de orientação psicológica (ambas as modalidades com número fixo e pré-determinado de sessões). 

            Maiores informações sobre o Grupo de Orientação Psicológica “Estratégias de Manejo da Ansiedade para o Vestibular” podem ser encontradas em: http://desenvolverpsi.blogspot.com.br/p/grupo-de-orientacao-psicologica.html.

25 de julho de 2017

Ansiedade: Prevenção e Cuidado no Mundo Contemporâneo

            Certo grau de ansiedade sempre está presente no desenvolvimento saudável dos indivíduos. Especialmente diante de situações aversivas – realizar uma prova na faculdade, participar de uma entrevista de emprego, ter que falar em público etc. – é comum que nos sintamos preocupados e fragilizados. No entanto, para algumas pessoas, tal estado de apreensão e impotência é extremamente forte e as impede de realizar a atividade pretendida. Para outras, tais emoções são constantes e contínuas, não estando atreladas a nenhum evento em especial. Nesses casos, aí, sim, temos que considerar um problema de ansiedade.

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            A ansiedade circunstanciada, ligada a eventos aversivos que estão em iminência de acontecer, é natural. Podemos aprender a controla-la para que não influencie negativamente o nosso desempenho social. Estratégias de relaxamento e de respiração (Respiração Diafragmática, Relaxamento Muscular Progressivo de Jacobson etc.), assim como técnicas de visualização (Descatastrofização, Dessensibilização Sistemática, entre outras), podem nos ajudar nesse processo.    
            Já a ansiedade que escapa ao nosso controle, particularmente quando não está associada a nenhuma circunstância conhecida, exige um pouco mais de atenção e cuidado. Buscar ajuda médica e psicológica é essencial para que a pessoa consiga controlar seus estados de maior ansiedade, podendo, assim, melhor se adaptar aos diversos contextos e situações do seu dia a dia. Em casos mais severos, inclusive, é indicada intervenção medicamentosa (após boa avaliação e diagnóstico do quadro do paciente).
            Em todos os casos, a superação de sintomas de ansiedade e o controle cotidiano desses passa, também, por mudanças nos nossos hábitos. Pequenos cuidados ao longo da nossa rotina podem potencializar o sucesso de qualquer tratamento.
            Há alimentos, por exemplo, que estão associados ao controle da ansiedade – frutas cítricas, leite e derivados magros, ovos, banana, carboidratos derivados de cereais, carnes e peixes, espinafre etc. – enquanto outros são considerados fator de risco para a produção de sintomas – café, gorduras saturadas, carboidratos refinados / açúcar, corantes e conservantes presentes em alimentos industrializados, entre outros. Substâncias como o tabaco, o álcool e as drogas ilícitas também agravam quadros de ansiedade, devendo ser evitados.
            A prática regular de atividade física também é considerada fator que pode trazer benefícios relacionados à diminuição de sintomas de ansiedade e a melhorias nos estados de humor do indivíduo. Pesquisadores internacionais apontam que o exercício atua no organismo de forma similar à de algumas drogas antidepressivas.
            Nossos hábitos de sono também influenciam nossos estados de humor. A falta de horas de sono pode acarretar formar diversas de ansiedade. O problema é que a ansiedade, em si, traz prejuízos à qualidade do nosso sono, o que agrava os próprios sintomas da ansiedade - o ciclo se retroalimenta. Educar o corpo e cuidar da qualidade do nosso sono é essencial no controle dos sintomas.
            Fato é que a ansiedade está cada vez mais prevalente (ou, ao menos, é essa a nossa percepção) no mundo contemporâneo. A correria do dia a dia, a velocidade com a qual recebemos informações por todos os lados (intensificada pelas evoluções tecnológicas, especialmente pelas novas tecnologias de informação e comunicação - as NTICs), o ideal de produtividade que internalizamos, o consumismo, são alguns dos fatores que nos fazem, enquanto sociedade, nos apercebermos mais ansiosos que as gerações de outrora.

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       Para a prevenção da ansiedade, precisamos desacelerar. Precisamos voltar a vivenciar períodos de descanso, de ócio, de reflexão. Não descansamos quando estamos continuamente expostos à luzes e informações na tela do smartphone. A sensação de que “o cérebro não para”, muitas vezes, é consequência de nossos próprios comportamentos, dos nossos hábitos, de nossa rotina.

  A psicoterapia pode nos auxiliar nesse caminho de organização da vida, de digestão das emoções, a fim de que sejamos mais adaptados às circunstâncias da contemporaneidade. Mas, principalmente, pode nos ajudar a adquirir e a manter saúde e qualidade de vida. 


Danilo Ciconi é psicólogo clínico e atua nas cidades de São João da Boa Vista – SP e São Carlos - SP.