1 de abril de 2017

Profecia Autorrealizadora: o poder da palavra do professor na construção do “aluno-problema”

            A influência do adulto sobre a formação e o desenvolvimento da criança é alvo de diversos estudos da área da Psicologia e da Educação. É a partir da relação com o adulto, especialmente com os pais/cuidadores, que a criança constrói o seu referencial de mundo.
            Nesse sentido, a instituição escolar também tem grande influência sobre a socialização e o comportamento das crianças. Alguns autores da Psicologia do Desenvolvimento e da Antropologia afirmam que, entre os 6 e os 10 anos (mais ou menos), a escola acaba sendo, inclusive, o principal fator de socialização do jovem. Nessa perspectiva, ganha destaque a figura do professor. O educador tem ascendência sobre seus educandos; para eles, em determinado momento da vida, o professor é visto como ente de autoridade e identificação, sua palavra é considerada “lei” e “verdade”. Ou seja, o que ele diz e faz tem grande poder.
            Assim, o professor precisa tomar cuidado com a própria conduta e, particularmente, com os seus modos, conscientes ou inconscientes, de se relacionar com os seus alunos. Mais ainda, precisa estar ciente do poder que as suas expectativas têm sobre eles.

            Há, em Psicologia, um conceito bastante difundido chamado Profecia Autorrealizadora. Ele versa sobre como nossas expectativas em relação ao acontecimento de um fenômeno tendem a modular nosso comportamento, de forma que nossa conduta acabe cooperando para o aparecimento do fenômeno que anteriormente esperávamos. Em outras palavras, por acreditar tanto em algo, agimos como se este algo já fosse real e, por isso, colaboramos para a sua produção – mesmo que não percebamos nossa participação nesse processo.

            Não é incomum, por exemplo, que um professor, após assumir uma nova turma, acabe se deixando influenciar pelos comentários e impressões de outros profissionais (que trabalharam anteriormente com o mesmo grupo) acerca da conduta de determinados alunos. Na maioria das escolas nas quais atuei, praticamente todas as salas tinham um ou dois alunos eleitos como “aluno-problema” (em tempo: odeio esta expressão com toda a minha consciência).
            Em decorrência disso, certamente, o novo professor vai se aproximar da criança já esperando encontrar dificuldades. Irá redobrar a supervisão e a vigilância sobre ela e, quanto mais se vigia, mais se descobrem pequenos desvios (comuns a todos os estudantes). Para este aluno, poucas tarefas importantes serão delegadas, pois já se esperará, por parte dele, falta de comprometimento ou dificuldades de relacionamento com colegas no correr da realização delas. Sem perceber e sem sequer conhecer a fundo o estudante, o professor acaba por reimprimir nele o rótulo de “aluno-problema”, conforme lhe fora dito pelos colegas docentes no início dos seus trabalhos com aquela turma.
            Muitas vezes, tal expectativa se agrava ainda mais após o contato com a família do estudante. Temos enraizada em nós a crença de que se a família do aluno apresenta problemas (o que chamamos, na atualidade, de “família disfuncional”), ele está fadado a apresentar desadaptação escolar, só que isto não é necessariamente verdadeiro.
            Fato é que, após perceber o estigma que existe sobre ele e vivenciar diversos episódios nos quais seus resultados positivos são negligenciados e os negativos são supervalorizados, o aluno acaba (ainda que inconscientemente) “vestindo a carapuça”. Por ser pouco estimulado, por não ter reconhecidas as suas potencialidades e ter superestimadas as suas dificuldades, ele acaba realmente se tornando um “aluno-problema”.
            O fenômeno também pode ser observado em relação a aprendizagem. O professor que enuncia ao educando que este não tem aptidão para determinada atividade (“você não leva jeito”, “você não é capaz”, “você é burro!” – e, sim, esse tipo de expressão infelizmente é bem comum em sala de aula) pode incutir nele uma forte crença de incapacidade. O aluno, crente de que não é capaz de aprender ou de apresentar bom desempenho na atividade, pouco ou nada faz para mudar este quadro (afinal, o professor atestou que ele não é capaz!). Assim, desinveste no próprio desenvolvimento e aprendizagem. Como consequência, de fato, acaba por apresentar maus resultados – o que reforça ainda mais a sua crença incapacitante.

            Mas como escapar disto?
            Primeiramente, é importante que nós, como educadores, tomemos muito cuidado com as nossas ações e propostas pedagógicas. É necessário manter a autocrítica e a auto-observação do nosso comportamento, sobretudo em sala de aula, e romper com crenças pré-estabelecidas acerca da realidade de nossos alunos.
            Não é porque o educando não apresentou bom comportamento e/ou desempenho na aula de outro professor que na nossa também há de ser assim. Trata-se de uma outra relação forjada sobre contingências distintas.
            Além disso, se realmente cremos que nosso aprendiz corrobora com o estigma que lhe impuseram, o manejo deve ser totalmente o contrário: não podemos nos conformar com o problema e com a dificuldade. Muito menos reforça-los. O bom educador é o que identifica, nos alunos, os seus maiores limites e os ajuda a superá-los. O aluno com dificuldades de comportamento deve ser o mais estimulado a trabalhar em grupo; o com baixo desempenho escolar, o mais frequentemente pontuado positivamente a cada pequena conquista. Vamos trabalhar a Profecia Autorrealizadora de maneira positiva!
            Por fim, é fundamental que demos espaço e dediquemos tempo ao trabalho com as emoções dos nossos educandos. Procurar formas de fortalecer a autoestima e o autoconceito de nossos alunos é o grande diferencial de uma educação que desenvolve pessoas e constrói cidadãos conscientes das próprias potencialidades. É importante se empenhar na edificação de um relacionamento sadio e afetivo com nossos aprendizes: o poder de socialização que temos sobre eles é, deste modo, intensificado. E qualquer pequena intervenção ganha grande peso: faz a diferença nas suas trajetórias de vida.
            Podemos transformar histórias com o poder de nossas palavras e ações. Na maioria das vezes, a única coisa que um “aluno-problema” precisa é de alguém, quanto mais um professor, que acredite nele quando ninguém mais acredita...

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