5 de julho de 2017

Produtivismo Acadêmico e Saúde Mental na Universidade

            A lógica do Mercado (pós-Revolução Industrial), na contemporaneidade, tem estado presente em diversos contextos da vida humana – muitos os quais não deveria estar. A Universidade, particularmente no tocante à formação acadêmica e à produção do conhecimento científico / atividades de pesquisa, tem se dobrado à essa lógica. Graduandos, pós-graduandos e, inclusive, professores, têm sofrido na carne as consequências de uma cobrança absurda por produtividade, expressa na anulação de si, da própria subjetividade, a fim de corresponder às expectativas dos pares. O tempo, mesmo o livre, parece ter se encurtado, visto as inúmeras demandas a resolver. A sensação é a de que quanto mais se estuda ou trabalha, mais se tem ainda a produzir. A imagem recorrente é a de que quem não se ajusta, não se sacrifica (totalmente), não serve, não é bom ou competente (ao menos, é isso que verbalizam ou demonstram boa parte dos professores universitários).
Imagem: pixabay.com

            Na Universidade pública, especialmente, o produtivismo se instala desde a base. O docente já é acometido por uma série de atribuições – pesquisa, docência e orientação de alunos na graduação e na pós-graduação, atividades de extensão, atividades administrativas / participação em Conselhos e comissões, publicações e participação em eventos de divulgação científica etc. O profissional é intensa e constantemente “estimulado” à produtividade, além de ter que dar conta de atribuições essencialmente bem diversas, necessitando mostrar-se portador de múltiplos talentos e habilidades. Dito isto, se levanta uma questão: toda essa carga de trabalho, de algum modo, não incide negativamente na qualidade da produção científica brasileira?
            É conhecido como “Ciência Salame” o modelo de divulgação científica no qual um pesquisador divide seus achados em diversas “fatias”, a fim de publicá-las na maior quantidade possível de periódicos científicos. Para conhecer toda a sua produção científica, é preciso “juntas as fatias”. Além disso, as revistas ficam lotadas de artigos “incompletos” sobre um tema sobre o qual já se conhece muito mais (mais ou menos como fazem as empresas de tecnologia ao lançar um produto novo no mercado, mesmo já tendo técnica suficiente para lançar outro com muito mais recursos, mas não o fazem por conta de reserva de mercado). Faz-se ciência para publicação e não para que ela afete verdadeiramente a sociedade e o dia a dia das pessoas. Valoriza-se a quantidade, em detrimento da qualidade.
            Na graduação e na pós-graduação, toda essa carga que recai sobre o docente é repassada aos alunos. Inúmeros trabalhos, seminários, provas e outros meios de avaliação, fundamentados em quantidades exageradas de leitura de livros e/ou de artigos, formam o corpo de diversas disciplinas que parecem querer instalar, desde o início, um ideal irreal de produtividade no jovem estudante.
            A Universidade, por vezes, como resultado de suas práticas institucionalizadas, estimula a competição entre os graduandos. Se a média geral (nota) é o principal critério para a seleção de estágios, bolsas e outros recursos/oportunidades, cria-se, no estudante, uma cobrança extremada sobre o próprio desempenho acadêmico. Não é incomum encontrarmos graduandos, desde o primeiro semestre do curso, preocupados com estágios e projetos de pesquisa / iniciação científica – sem nem bem conhecer o curso e todas as suas possibilidades.
            Escuto, com frequência, estudantes se punindo por se permitirem aproveitar o seu tempo livre para descansar corpo e cérebro. Chegar em casa e, ao invés de estudar, se distrair com o que gosta de fazer é sentido como se fosse um “pecado mortal”. O final de cada semestre, particularmente, é um calvário.
Imagem: pixabay.com
    Para alguns, a cobrança por produtividade, de forma obsessiva, os acompanha todo o tempo, dia e noite, inclusive aos finais de semana. Cuidar de si, da sua saúde relacional, do seu equilíbrio emocional, é visto como “perda de tempo”. Afinal, é preciso produzir. A ansiedade, por outro lado, incide diretamente sobre o desempenho acadêmico desses, prejudicando-o. Se tratando de horas de estudo/trabalho, quantidade, com certeza, não é sinônimo de qualidade.
            Onde estão os que proclamam odes ao ócio criativo? Por que deixamos de valorizar o tempo que temos para nos encontrar com aquilo que nos é essencial, identitário? Desde quando passamos a relacionar produtividade com qualidade de ensino-aprendizagem e nos esquecemos que o mais importante nessa equação é sempre o fator humano?
            A adolescência já é, por si só, marcada por conflitos e dificuldades de regulação emocional. O ingresso no ensino superior é um período difícil, de adaptação. O jovem vive sentimentos intensos e ambivalentes. O ideal de produtividade acadêmico intensifica-os. “Era o meu sonho e, agora que eu estou aqui, eu sofro, eu não consigo ficar bem”. Diversos sintomas – depressão, estafa, consumo excessivo de álcool e outras substâncias psicoativas, problemas de autoestima, conflitos nos relacionamentos, comportamentos sexuais de risco etc. – podem estar relacionados à ansiedade atrelada à esta etapa da vida. E tudo isso, com certeza, afeta a aprendizagem, o desempenho, e isto aumenta, mais ainda, a ansiedade. É um ciclo. “Eu me dedico tanto e sinto que não consigo aprender. O que tem de errado comigo? Eu não estou me esforçando o suficiente? ”.
            O pior é que isso tudo é tão comum, esse ideal está tão enraizado na Universidade e nos universitários, que tendemos a considerar a pressão por produzir algo “normal”. Sou eu quem sofro, eu quem não consigo, eu quem tenho problemas – acredita o jovem universitário quando confrontado com suas dificuldades de adaptação.
            Não é verdade! Há uma cultura que precisa mudar. Gostaria de (tentar) apontar alguns caminhos:
1.      Revisar, enquanto comunidade acadêmico-científica, o ideário industrial de formação.
            A Universidade deve ser encarada – por alunos, professores, equipe administrativa, entidades e órgãos ligados à Educação etc. – como espaço de construção coletiva do conhecimento. Significa dizer que cada um, com a sua subjetividade e motivações, contribui com o processo ensino-aprendizagem, com o desenvolvimento científico. E, para isso, precisa ter plenas condições – físicas, psicológicas, cognitivas, sociais – de se colocar como protagonista do processo de produção científica. Assim, o que deve ser estimulado no aluno é a sua autonomia, seu potencial criativo, sua capacidade investigativa. Metodologia Científica, por exemplo, muito mais que um conjunto de técnicas, diz respeito a despertar no aluno o interesse e a curiosidade necessários para que ele problematize a realidade e dialogue, a partir do seu trabalho, com a produção científica internacional, colocando-se com entusiasmo nesse processo. Sob esta perspectiva, as indagações de alunos, professores e comunidade têm que ser levadas em conta, inclusive, para a elaboração do currículo de cada disciplina. Necessidades proximais, da comunidade acadêmica e da sociedade ao entorno, podem servir de mote para a formulação das hipóteses que irão embasar os conhecimentos/pesquisas a ser construídos. É um fazer científico encarnado na história, que não está atrelado exclusivamente às demandas do mercado.
            Nesta compreensão do fazer-universitário, a produção em massa não funciona. Ao contrário, ganha espaço um ideário de Educação mais participativo e humanizado. As formas de produção do conhecimento são mediadas, não impostas. As atividades acadêmicas e os métodos de avaliação estão a serviço do desenvolvimento de competências. A teoria se mostra sempre atrelada à prática.
            Hoje, diversos autores (no Brasil, destaco a produção do professor Cipriano Luckesi) apontam como os atuais modelos de avaliação não conseguem acompanhar, de fato, a qualidade do processo ensino-aprendizagem. O foco das avaliações é essencialmente a memória do aluno – o quanto é capaz de decorar e reproduzir conteúdo, às vezes, irrefletidamente. Na Universidade, o perigo disso é a possibilidade de formar alunos com ótima memória, que conhecem de cor termos técnicos e teoremas, mas com pouca perspicácia prática; ou seja, alunos que, diante de uma situação-problema real, não conseguem ter autonomia de oferecer respostas cientificamente referendadas a ela.
            Não significa que a Universidade deve reduzir seu grau de dificuldade e exigência. Mas, sim, deve considerar, também, o fator humano participante desse processo. Ensino-aprendizagem envolve o ser humano em seus múltiplos aspectos. A Universidade precisa considerar, corresponder e acompanhar globalmente a aprendizagem do indivíduo.
2.      Cuidar de si
            Quando o corpo fala, é melhor parar para escutar. Se estamos tendo sintomas, os mais diversos, temos que tentar encontrar o que está errado. Por que eu tenho que “dar conta” sempre? Por que eu não posso estar cansado, ter sono, querer desligar das minhas atividades, desacelerar?
            É claro que, vez ou outra, frente a alguma necessidade, pode ser preciso “sacrificar” um feriado ou final de semana para dar conta das obrigações acadêmicas. É certo que, de vez em quando, comprometeremos tempo de sono. Mas isso não pode ser regra! Nós precisamos de um tempo para restaurar as forças, o ânimo. Inclusive, quem disse que, nos dias “úteis”, só temos que nos dedicar às obrigações?
            Cuidar de si tem a ver, também, com permitir-se estar ligado a outros tipos de atividades. A velha desculpa do “não tenho tempo” nos impede de dar vasão a aspectos importantes da identidade. Atividades artísticas-culturais, práticas esportivas, grupos religiosos – onde eu me sinto bem, onde eu encontro e me ligo a pessoas, onde eu posso expressar quem eu sou, vale a pena estar. Com o tempo, se permitindo viver, nós percebemos que estar em paz – conosco, com os outros, com o mundo – reflete positivamente inclusive sobre nossas atividades acadêmicas e profissionais.
            Se eu não consigo me desligar, se a minha rotina é fonte contínua de angústia e/ou de sentimentos ambivalentes, eu preciso de ajuda. Muitas vezes, esperamos algo mágico, que nos “conserte” da noite para o dia. Isso não existe! Ignorar ou tentar esquecer os problemas também não funciona. Olhar para si e cuidar de si é fundamental!
3.      Criação de comunidades de ajuda
            As pessoas precisam ser ouvidas e cuidadas, quanto mais quando nem mesmo elas próprias entendem direito o que lhes está acontecendo. A criação de espaços de acolhimento é essencial para ajudar os alunos (e por que não os docentes?) a lidarem melhor com as suas emoções, a conduzir a vida acadêmica de uma forma mais respeitosa (consigo próprio) e mais equilibrada.
            Alguns campus já adotam algumas inciativas: palestras, serviço próprio de atendimento e aconselhamento psicológico aos graduandos e pós-graduandos (geralmente associados aos departamentos de Psicologia / Clínicas–Escola), disciplinas vivenciais, programas de tutoria (nos quais professores e alunos “veteranos” acompanham os calouros durante o período de adaptação) etc. Os resultados alcançados são positivos: menos evasão dos cursos, melhor desempenho acadêmico geral, maior qualidade nos atendimentos e serviços nos programas de extensão abertos à comunidade.
            Mas, além de ações institucionais, todos temos responsabilidade pelo microcosmos no qual estamos inseridos. Prestar atenção ao outro, ao colega que senta ao nosso lado. Escutá-lo. Ajuda-lo no que estiver ao nosso alcance e, no tocante ao que não está, incentivá-lo a buscar ajuda especializada. Em suma, ter empatia!

            O sucesso acadêmico passa indubitavelmente pelo cuidado com as próprias emoções e pela consideração do outro. Afinal, como dizem por aí: “adianta ter pós-doutorado e não cumprimentar o porteiro? ”. Nossa saúde – física, emocional, relacional/social – e qualidade de vida têm que ser o terreno sobre o qual trilhamos nosso caminho acadêmico/profissional. Ou então, será tudo vão, poderemos ruir…

Texto originalmente publicado em:
http://www.educadois.com.br/produtivismo-academico-saude-mental-universidade

Danilo Ciconi é psicólogo clínico e atua nas cidades de São João da Boa Vista – SP e São Carlos - SP.

Nenhum comentário:

Postar um comentário